Governo federal aposta em canal técnico com USTR; São Paulo prioriza diplomacia direta com embaixada americana no Brasil.
Enquanto o Brasil tenta escapar do tarifaço de 50% anunciado por Donald Trump, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), escolheram caminhos diferentes para tentar uma saída diplomática com os Estados Unidos. A divergência de interlocutores, no entanto, expõe não apenas abordagens distintas, mas também o temor comum de que qualquer avanço seja barrado pelo deputado federal licenciado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que mantém interlocução direta com a Casa Branca.
O governo federal optou por negociar com o USTR (United States Trade Representative), órgão responsável pelas políticas comerciais dos EUA. Foi a essa instância que o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços enviou, ainda em maio, uma proposta sigilosa para tentar reverter tarifas impostas em abril, e que agora também inclui os 50% anunciados para agosto. Segundo o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB), a ideia é apresentar, na semana que vem, uma proposta formal construída com apoio do setor privado.
Diplomatas envolvidos na tratativa avaliam que, sem um embaixador americano no Brasil e com o canal diplomático tradicional enfraquecido, a via técnica com o USTR é a mais segura e institucional, ainda que lenta.
Já Tarcísio preferiu envolver diretamente a diplomacia norte-americana instalada no país, promovendo nesta terça-feira (15), no Palácio dos Bandeirantes, uma reunião com representantes de 15 setores industriais e com a presença de Gabriel Escobar, encarregado de negócios da embaixada dos EUA em Brasília, hoje o mais alto cargo diplomático americano em território brasileiro.
O governador paulista, que tenta manter o foco na agenda econômica e se distanciar do debate político polarizado, tem buscado se posicionar como articulador junto ao empresariado para proteger as exportações de São Paulo, altamente vulneráveis às novas tarifas.
Apesar da divergência de estratégia, há um ponto de convergência no receio de ambos os lados: que Eduardo Bolsonaro interfira negativamente no processo. O deputado licenciado, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, está nos EUA desde março e tem livre acesso à ala mais ideológica da Casa Branca, especialmente após o apoio público de Trump ao ex-presidente brasileiro.
O problema, segundo fontes do Planalto e do governo paulista, é que a “moeda de troca” que Eduardo Bolsonaro tem apresentado é a anistia aos envolvidos no 8 de janeiro: algo que nem Lula, nem Tarcísio, pretendem colocar na mesa de negociação. O impasse, portanto, é duplo: diplomático e político.
A escalada da tensão comercial imposta por Trump também é vista como uma retaliação indireta ao Brasil pela sua atuação no Brics e pela postura independente do governo Lula em relação às big techs e à guerra da Ucrânia. Neste cenário, qualquer canal de negociação pode ser fragilizado por interferências externas; inclusive domésticas.
Texto: Daniela Castelo Branco
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