Equipe econômica teme impacto inflacionário e defende análise produto a produto para evitar prejuízo ao consumidor.
O governo brasileiro avalia com cautela os próximos passos diante do tarifaço de 50% imposto pelos Estados Unidos sobre produtos nacionais. Embora o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tenha autorizado, nesta quinta-feira (28), que o Itamaraty acione a Camex (Câmara de Comércio Exterior) para iniciar consultas sobre a aplicação da Lei da Reciprocidade Econômica, a equipe econômica defende que qualquer retaliação seja feita com parcimônia.
A orientação é clara: cada produto deve ser analisado separadamente antes de ser sobretaxado, de modo a evitar que uma escalada de medidas protecionistas acabe pressionando a inflação e impactando diretamente o bolso do consumidor brasileiro.
Nos bastidores, auxiliares de Lula avaliam que, embora a resposta do governo seja necessária, um revide amplo contra todos os produtos americanos poderia se voltar contra o próprio Brasil, encarecendo o custo de vida e desgastando a imagem do presidente. “Lula não vai ganhar de Trump sobretaxando todos os produtos americanos”, resumiu um assessor.
Estratégia e diplomacia
A decisão de Lula é vista também como uma forma de forçar Donald Trump a retomar o diálogo. Ainda neste mês, o presidente brasileiro deve discursar na abertura da Assembleia Geral da ONU, em Nova York, onde Trump também estará presente. Embora não esteja previsto um encontro bilateral, a expectativa é de que os dois se cumprimentem durante o evento.
No discurso, Lula deve reforçar bandeiras como a defesa da soberania nacional, a necessidade do multilateralismo, a preparação para a COP30 no Brasil e um apelo contra conflitos que assolam a Europa e o Oriente Médio.
O relatório técnico da Camex sobre o impacto das tarifas americanas deve ficar pronto em até 30 dias. Até lá, o Planalto deve equilibrar firmeza política com prudência econômica, em busca de uma retaliação que preserve tanto a imagem do Brasil quanto a estabilidade da vida do consumidor.
Esse episódio recoloca o país em uma encruzilhada delicada: responder de forma dura e simbólica às medidas protecionistas de Trump, sem perder de vista que, no fim das contas, o impacto real recai sobre quem faz a feira, paga as contas e sente cada variação de preço no dia a dia.
Texto: Daniela Castelo Branco
Foto: Divulgação