Movimento tem mais efeito político do que prático e pressiona partidos da base governista em meio à tensão institucional.
O retorno do Congresso Nacional, nesta terça-feira (5), já começou com uma ofensiva ruidosa da oposição: tentar emplacar um pedido de impeachment contra o ministro Alexandre de Moraes, do STF. Na prática, a iniciativa ainda patina. O líder do PL, Carlos Portinho, admitiu que faltam cinco assinaturas para protocolar o documento, e três delas precisam vir do Partido Progressista (PP), um dos pilares da base governista.
A aposta é ousada. O PP, que hoje ocupa o Ministério do Esporte e costura uma aliança estratégica com o União Brasil, vive aquele dilema clássico de Brasília: seguir com o governo para preservar cargos e verbas ou ceder à pressão do bolsonarismo, que quer transformar Moraes em alvo de desgaste permanente. Essa tensão interna tende a aumentar à medida que se aproximam as convenções partidárias, momento em que qualquer vacilo pode custar caro em capital político.
Bastidores: mais pressão que resultado
Apesar da mobilização, os próprios articuladores da oposição sabem que a chance do pedido prosperar é mínima. No Senado, pedidos de impeachment de ministros do STF estão longe de ser uma novidade: quase sempre servem como munição política e pouco avançam. O real objetivo, desta vez, parece ser criar constrangimento para partidos que transitam entre os dois mundos: a base governista e a órbita bolsonarista.
É nesse contexto que entra Davi Alcolumbre, presidente do Senado e verdadeiro guardião das chaves desse processo. Caberia a ele dar andamento ou arquivar o pedido. Até aqui, Alcolumbre tem sinalizado que não pretende abrir espaço para iniciativas que aumentem a instabilidade institucional. Para ele, e também para o presidente da Câmara, Hugo Motta, a prioridade do semestre deveria ser a agenda legislativa e econômica; justamente para tentar blindar o Congresso das crises sucessivas que orbitam o Judiciário e o Executivo.
Estratégia de desgaste
O movimento da oposição tem, portanto, um claro componente estratégico: mais do que derrubar Moraes, o foco é manter acesa a chama da narrativa de perseguição política e atrair a base governista para uma situação desconfortável. Cada assinatura conquistada será usada como vitrine; cada ausência, como munição para cobrar fidelidade aos eleitores mais alinhados ao bolsonarismo.
No fundo, essa é uma guerra de narrativas que serve de termômetro para o novo cenário político: de um lado, um STF cada vez mais protagonista; de outro, uma oposição que tenta capitalizar o desgaste com movimentos de impacto midiático, mesmo sabendo que dificilmente terão efeito jurídico concreto.
Texto: Daniela Castelo Branco
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