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Do altar ao algoritmo: quando a fé não protege a intimidade

Caso italiano revela como a vida digital pode transformar corpos e relações em mercadoria, expondo fragilidades legais e culturais.

Na Itália, país mais católico da Europa, um grupo do Facebook com 32 mil membros foi encerrado após homens compartilharem, por anos, fotos íntimas de suas esposas sem consentimento. Centenas de imagens circularam acompanhadas de comentários sexistas até que denúncias em massa forçaram a plataforma a agir. A polícia recebeu quase três mil queixas; mas só depois que a indignação viralizou o crime foi interrompido.

O episódio vai além do voyeurismo: evidencia como o corpo feminino é transformado em dado circulável, protegido apenas quando a atenção pública e digital exige. O contraste é agudo: em uma nação onde a fé católica valoriza a família, a esposa foi convertida em ativo de troca digital, uma mercadoria no mercado paralelo da intimidade.

Essa fissura não é apenas cultural; é estrutural. O que se proclama no altar não se sustenta no algoritmo. Roma, Lagos ou São Paulo — os cenários mudam, mas a lógica é a mesma: jovens mulheres têm suas fotos replicadas em aplicativos clandestinos ou utilizadas em deepfakes pornográficos, expondo fragilidades na arquitetura das grandes plataformas digitais. Elas são projetadas para maximizar engajamento, lentas para proteger vítimas e rápidas para monetizar a violência.

Defensores da liberdade de expressão argumentam que a fiscalização excessiva ameaça direitos. Mas a linha se desfaz quando o que está em jogo é violência sexual mediada por tecnologia. O que falta não é fé nem lei isolada, mas coerência: não se pode exaltar a dignidade da família aos domingos e ignorar que, durante a semana, algoritmos transformam mulheres em mercadoria digital.

O caso italiano é um alerta global. Se, no coração católico da Europa, a intimidade conjugal pode virar espetáculo, no Sul Global a situação é semelhante e muitas vezes a denúncia só produz resultados concretos quando viraliza, como ocorreu com o influenciador Felca no Brasil.

A resposta necessária é clara: alinhamento entre lei e tecnologia. Sem isso, seja em Milão ou em Maputo, Roma ou Brasília, o corpo humano continuará sendo moeda na economia obscura do engajamento digital: a mesma economia que corrói cotidianamente os fundamentos da democracia.

Texto: Daniela Castelo Branco

Foto: Divulgação

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