Presidente reage com firmeza e equilíbrio após revogação de vistos e restrições a autoridades brasileiras ligadas ao Mais Médicos.
A tensão diplomática entre Brasil e Estados Unidos ganhou um novo capítulo nesta semana. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) não poupou críticas às recentes sanções impostas pelo governo norte-americano, que incluem a revogação de vistos de servidores brasileiros ligados ao programa Mais Médicos. A medida foi anunciada pelo Departamento de Estado, em nota assinada pelo secretário Marco Rubio, e afeta também ex-funcionários da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas).
Segundo o governo americano, o Brasil teria usado a Opas como intermediária para contratar médicos cubanos, repassando recursos diretamente ao regime de Havana, o que violaria sanções impostas aos cubanos. A nota acusa os envolvidos de “cumplicidade com o esquema de exportação de mão de obra” promovido por Cuba. Entre os nomes citados estão Mozart Julio Tabosa Sales, atual secretário de Atenção Especializada à Saúde, e Alberto Kleiman, coordenador-geral da COP30 e ex-diretor da Opas.
O Mais Médicos foi lançado em 2013, no governo Dilma Rousseff, para suprir a falta de profissionais em regiões remotas e vulneráveis do Brasil. Em 2015, chegou a reunir mais de 18 mil médicos, sendo boa parte cubanos.
“Insensatez” e defesa de Cuba
Durante a inauguração da fábrica de hemoderivados da Hemobrás, em Goiana (PE), Lula classificou a medida como uma “insensatez” do ex-presidente americano Donald Trump, lembrando que Brasil e Estados Unidos mantêm relações diplomáticas há 201 anos. “O Trump fez uma insensatez com o Brasil porque nós somos parceiros americanos há 201 anos. Não é de hoje”, afirmou, visivelmente emocionado.
O presidente defendeu a relação histórica com Cuba e criticou duramente o bloqueio econômico imposto pelos EUA à ilha há mais de sete décadas. “Os Estados Unidos fizeram uma guerra e perderam. Aceite que perdeu e deixe os cubanos viverem em paz”, declarou.
Postura firme, mas sem retaliação
Apesar do tom crítico, Lula reforçou que o Brasil não pretende reagir com medidas de retaliação, como a imposição de sanções similares contra autoridades americanas. Ele afirmou que o país manterá firmeza e equilíbrio, evitando agravar a crise diplomática. “O mundo é muito grande, o Brasil tem 8 milhões e meio de km². Você tem lugar para andar no Brasil para caramba”, disse, numa tentativa de tranquilizar a opinião pública e reforçar a soberania nacional.
Fontes do Itamaraty confirmam que o governo brasileiro ainda não tem clareza sobre o número total de autoridades atingidas, já que, por questões de privacidade, cada pessoa precisa consultar individualmente seu status junto aos EUA.
Repercussão política
Enquanto o Planalto aposta na diplomacia, a oposição repercutiu as sanções com críticas. O deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) afirmou que “nem ministros, nem burocratas dos escalões inferiores, nem seus familiares estão imunes” às medidas e alegou ser vítima de perseguição por parte do ministro Alexandre de Moraes.
Eduardo Bolsonaro e as sanções
O deputado Eduardo Bolsonaro está nos Estados Unidos desde março e já ultrapassou o prazo de afastamento autorizado pela Câmara, que venceu em 20 de julho. Caso não retorne, corre risco de perder o mandato por faltas não justificadas. Eduardo é alvo de sanções impostas com base na Lei Magnitsky, que permite aos EUA punir estrangeiros acusados de corrupção ou violações de direitos humanos. Ele nega irregularidades e afirma sofrer perseguição política.
Contexto histórico e político
As medidas americanas se inserem em um contexto mais amplo, que inclui sanções anteriores a ministros do STF, como Alexandre de Moraes, e o uso da Lei Magnitsky, que prevê bloqueio de contas e bens em solo norte-americano, aplicada sob justificativa de violação de direitos humanos. Lula e sua equipe tratam essas ações como provocação, buscando equilibrar firmeza e diplomacia, sem reagir impulsivamente, preservando a imagem do Brasil no cenário internacional
Cenário mais amplo
Essa não é a primeira vez que autoridades brasileiras são alvo de medidas de Washington. Nos últimos anos, ministros do Supremo Tribunal Federal, como Alexandre de Moraes, já foram incluídos em sanções com base na Lei Magnitsky, que prevê bloqueio de bens e contas nos EUA sob alegação de violações de direitos humanos.
Para o governo Lula, a atual ofensiva é mais uma provocação diplomática. A estratégia do Planalto, contudo, é responder com cautela, preservando a imagem do Brasil no cenário internacional e evitando que a crise se transforme em um confronto aberto com o governo americano.
Texto: Daniela Castelo Branco
Foto: Divulgação/Canal gov