Parlamentares falam em “guerra” legislativa, ocupam plenários e cobram reação de Hugo Motta e Davi Alcolumbre.
A prisão domiciliar de Jair Bolsonaro (PL), determinada pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), acendeu uma nova fase de tensão em Brasília. Nesta terça-feira (5), líderes da oposição anunciaram que irão obstruir os trabalhos do Congresso Nacional em protesto e como forma de pressionar pelo avanço da anistia aos condenados do 8 de janeiro e pelo impeachment de Moraes.
“Estamos nos preparando para a guerra”
Em tom de enfrentamento, o líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante (RJ), disse que a oposição está pronta para radicalizar suas ações.
“A partir de agora estamos nos adestrando e nos apresentando para a guerra. Se é guerra que o governo quer, guerra que o governo terá. Não haverá paz no Brasil enquanto não houver discurso de conciliação que passe pela anistia, pela mudança do fim do foro e impeachment de Moraes”, declarou.
As medidas fazem parte do chamado “pacote da paz”, anunciado nesta terça-feira por parlamentares bolsonaristas. Além da anistia e do impeachment de Moraes, o pacote inclui a PEC do fim do foro privilegiado para parlamentares, bandeira que a oposição pretende usar para reforçar o discurso de que Bolsonaro deveria ser julgado em primeira instância, assim como Michel Temer e Lula foram em seus processos.
Ocupação de plenários e pressão sobre as mesas diretoras
O clima de insatisfação levou senadores e deputados a ocupar as mesas dos plenários da Câmara e do Senado. O líder da oposição no Senado, Rogério Marinho (PL-RN), cobrou uma reação imediata dos presidentes das Casas Legislativas, Hugo Motta (Republicanos-PB) e Davi Alcolumbre (União-AP).
“É importante que o presidente Davi Alcolumbre tenha estatura neste momento e permita a abertura do processo de impedimento por crime de responsabilidade contra Alexandre de Moraes”, disse Marinho, que criticou a falta de diálogo com o presidente do Senado.
Segundo ele, cinco senadores já ocupam a Mesa do Senado, e deputados também repetem o gesto na Câmara, prometendo obstruir sessões e travar votações até que suas demandas sejam atendidas.
Anistia volta ao centro do debate
Durante a coletiva, o primeiro vice-presidente da Câmara, Altineu Côrtes (PL-RJ), anunciou que pretende pautar o projeto de anistia assim que assumir a presidência da Casa interinamente, em caso de viagem internacional de Hugo Motta.
“Sempre busquei equilíbrio e diálogo. Mas diante dos fatos, já comuniquei Motta que, no primeiro momento em que exercer a presidência plena da Câmara, irei pautar a anistia”, afirmou.
O projeto, parado desde o ano passado, não beneficia Bolsonaro diretamente, já que o ex-presidente está inelegível até 2030. No entanto, a oposição mira uma anistia ampla, geral e irrestrita, que abriria caminho para recuperar os direitos políticos do ex-presidente e viabilizar uma nova candidatura.
Crise institucional se agrava
O movimento da oposição evidencia que a prisão de Bolsonaro provocou uma escalada na crise entre Legislativo e Judiciário. Com ocupação de plenários, promessas de obstrução e a ameaça de avançar sobre projetos sensíveis ao STF, o Congresso se torna palco de uma disputa que pode paralisar votações e aumentar a instabilidade política.
Enquanto aliados falam em “guerra” e “retaliação”, Moraes mantém as restrições a Bolsonaro, que incluem proibição de visitas não autorizadas, uso de celular e contato com autoridades estrangeiras.
Se a estratégia de obstrução persistir, o impasse pode levar o país a uma das maiores crises institucionais dos últimos anos, colocando em confronto aberto os Três Poderes e mobilizando novamente a base bolsonarista nas ruas e nas redes sociais.
Texto: Daniela Castelo Branco
Foto: Divulgação