Apesar de promessas de que o custo recairia sobre empresas estrangeiras, evidências mostram que americanos estão gradualmente pagando a conta
No cotidiano das famílias americanas, pequenas decisões de consumo começam a revelar um impacto que muitos ainda não perceberam: o aumento gradual nos preços causado pelo pacote de tarifas imposto pela administração Trump. Apesar das declarações do ex-presidente de que países estrangeiros e empresas internacionais absorveriam os custos, dados econômicos, pesquisas acadêmicas e experiências de mercado mostram que o verdadeiro peso recai sobre consumidores e companhias nos Estados Unidos.
Segundo economistas, o repasse das tarifas é um processo lento, mas constante. Até junho de 2025, os consumidores americanos haviam absorvido cerca de 22% dos custos, mas essa participação deve subir para 67% até outubro, podendo chegar a 100% se incluídos efeitos indiretos, como o aumento de preços de produtos nacionais devido aos custos das tarifas. Produtos essenciais, como móveis, roupas de cama, ferramentas, brinquedos e artigos esportivos, já registram alta de preços em torno de 3% a 5% acima do esperado antes das tarifas.
O efeito gradual das tarifas
O impacto das tarifas não é imediato. As empresas abasteceram seus armazéns com produtos pré-tarifados, o que adiou o repasse total. Além disso, a maior parte das tarifas não entrou em vigor de imediato, e muitos produtos ainda estão temporariamente isentos. Ao mesmo tempo, os custos mais altos foram distribuídos ao longo da cadeia de suprimentos, o que ajudou a diluir os aumentos no varejo.
Economistas do Goldman Sachs projetam que cerca de 70% dos custos diretos das tarifas recairão sobre o consumidor, e a parcela pode chegar a 100% considerando os efeitos indiretos. “As empresas agora precisam descobrir quanto desse custo podem absorver e quanto repassar aos clientes”, afirmou Olu Sonola, chefe de pesquisa econômica da Fitch Ratings.
Mesmo com a gradualidade, o impacto já começa a ser sentido. Dados recentes mostram que preços de importação permaneceram praticamente estáveis, mas alguns setores específicos, como móveis e artigos domésticos, apresentaram aumento de até 5% em relação às tendências pré-tarifa. Produtos produzidos internamente subiram em média 3%.
A complexidade do repasse
A estratégia das empresas envolve equilibrar o impacto das tarifas entre fornecedores, varejistas e consumidores. Alguns grandes varejistas, como o Walmart, afirmam que os custos aumentam semanalmente, mas se esforçam para manter os preços baixos pelo maior tempo possível. A ideia é suavizar o impacto no bolso do consumidor, mas, inevitavelmente, parte dos custos será transferida.
Pesquisas do Federal Reserve Bank de Atlanta mostram que empresas — tanto as diretamente afetadas pelas tarifas quanto as que não têm exposição direta — planejam aumentar seus preços, com estimativas passando de 2,5% no final de 2024 para 3,5% em meados de 2025. Pequenos aumentos contínuos podem passar despercebidos para alguns, mas representam um verdadeiro desafio para famílias que vivem de salário em salário.
A vida das famílias afetadas
Para americanos de baixa renda, cada aumento se transforma em escolhas difíceis: abrir mão de uma refeição, adiar contas essenciais ou cortar despesas em áreas vitais, como transporte, energia ou saúde. “Eles fazem malabarismos constantemente para priorizar o que é mais urgente naquele momento”, explica Heather Long, economista-chefe do Navy Federal Credit Union. Esse efeito gradual, chamado de “sneakflation”, é uma realidade silenciosa que afeta milhões sem que percebam imediatamente.
Projeções para o futuro
Analistas alertam que o repasse total das tarifas pode levar meses ou até anos. A expectativa é de que os efeitos se intensifiquem à medida que mais tarifas entram em vigor e que empresas ajustem seus preços. A inflação, embora controlada em alguns setores devido a tendências deflacionárias e queda nos preços da gasolina, ainda sofre pressão indireta das tarifas.
Alberto Cavallo, professor da Harvard Business School, estima que o aumento de preços será gradual e contínuo, podendo levar de um a dois anos para se consolidar plenamente, mesmo com pequenas variações conforme a competitividade de cada setor.
Análise final
O “tarifaço” de Trump mostra que políticas econômicas, mesmo que projetadas para impactar empresas estrangeiras, inevitavelmente refletem no bolso do cidadão comum. Para muitas famílias, lidar com o aumento gradual de custos é um exercício diário de equilíbrio e sacrifício. Cada pequena decisão de consumo se torna um teste de prioridades e planejamento, e o efeito real das tarifas só se revela plenamente com o tempo, lembrando que, no fim das contas, quem paga a conta é sempre o consumidor.
Texto: Daniela Castelo Branco
Foto: Divulgação