Conversa entre líderes sinaliza como o país pode ganhar espaço no tabuleiro diplomático da crise entre Rússia e Ucrânia.
O telefonema de Vladimir Putin ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), nesta segunda-feira (18), vai além de uma mera atualização diplomática. Ao compartilhar diretamente com o brasileiro os desdobramentos de sua reunião com Donald Trump, no Alasca, o líder russo não apenas destacou a importância do Brasil no Grupo de Amigos da Paz, mas também sinalizou que vê na diplomacia brasileira um canal estratégico para equilibrar forças num cenário global marcado por tensões.
Putin classificou a conversa com o presidente americano como “positiva”, um tom que, ainda que discreto, abre espaço para novas costuras no tabuleiro da guerra. Ao escolher dividir essas impressões com Lula, reforça-se a percepção de que o Brasil, ao lado da China, pode ocupar o papel de interlocutor de confiança: um espaço raro em meio a um conflito polarizado.
O Planalto ressaltou que Lula agradeceu a ligação e reiterou o compromisso brasileiro com soluções pacíficas. Do lado russo, o Kremlin fez questão de registrar que o presidente brasileiro valorizou as informações recebidas, reconhecendo a relevância do diálogo para fortalecer o trabalho do grupo que busca saídas diplomáticas para o conflito.
Nos bastidores da geopolítica, o telefonema tem outro peso: reafirma a disposição de Moscou em ampliar a interlocução com países do Brics, grupo que ganha cada vez mais relevância como contrapeso à hegemonia ocidental. Para o Brasil, isso significa mais visibilidade no cenário internacional; ao mesmo tempo em que exige equilíbrio cuidadoso para não ser visto como alinhado a apenas um dos lados.
Mais do que um gesto protocolar, a ligação de Putin a Lula mostra que, no delicado xadrez da guerra, o Brasil começa a ser visto como uma peça-chave na busca por alternativas ao impasse.
Texto: Daniela Castelo Branco
Foto: Divulgação/CNN Brasil